Como o dólar sobe? Um guia prático

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Quando é noticiado que o dólar subiu alguém pode pensar: ‘O que eu tenho com isso, além de dificultar aquela viagem internacional ou a compra de produtos importados?’

Mas será mesmo que é só isso?

Vamos entender um pouco melhor.

Sabia que a alta do dólar contribui para o aumento da inflação e para o aumento da dívida pública? Ou mesmo pode afetar seu emprego?

Como acontece?

É interessante primeiro saber que o dólar só sobe e desce porque nosso regime de câmbio atual é o chamado regime flutuante. Além desse, existem basicamente mais outros dois: o regime de câmbio fixo e o de bandas cambiais (tema para outro post).

O que significa regime cambial, para começo de conversa?

Um regime cambial é a forma como nossa moeda pode ser trocada por outra. Daí o nome, câmbio.

Pois bem, em nosso país, como na maioria dos países do mundo, nosso regime é do tipo flutuante. Ou seja, a quantidade de moeda que podemos no trocar por outra depende do fluxo dessas moedas entre os países.

Vamos a um exemplo.

O dólar. A quantidade de reais que você desembolsa para acessar um dólar, depende da quantidade da moeda americana no Brasil. Quanto menos dólar tiver no país, mais reais (R$) você terá que desembolsar para comprar um dólar. O dólar se valorizou.

A famosa lei da oferta e demanda, também é válida, imagina, para o próprio dinheiro. Engraçado, o próprio dinheiro ter valor sobre sua quantidade. Pois é desse jeito.

Mas, o que faz ter mais ou menos dólar no país? Vamos ver as principais razões.

1. As expectativas dos investidores

Podemos dizer que o principal fator são as  expectativas. Quanto mais os investidores estrangeiros acreditarem na solidez da nossa economia, ou virem mais vantagens aqui, mais moeda estrangeira ( e o dólar é a principal moeda de troca) no país. Porque haverá mais investimentos estrangeiros.

Por isso a questão da confiança é tão importante. Se as instituições se mostram sólidas, já é um bom caminho andado.

2. Taxa de juros

Os investidores estrangeiros estão em busca também, é claro, de juros altos. Então, juros maiores também atraem capital estrangeiro. E juros maiores em economias mais desenvolvidas como os EUA, tendem a fazer os investidores irem para lá. E aqui, com menos dólar em circulação, a moeda americana fica mais cara.

Mas, só para você saber a taxa de juros dos EUA é em torno de 0,5%. E a nossa?14% ! (Nada justifica!)

2. Exportações e importações

Quando aumentam as exportações, a quantidade de dólar no país aumenta. Logo, o preço do dólar cai. E vice-versa. O aumento das importações também faz a quantidade de dólar cair. E com isso aumenta o preço do dólar. E vice-versa. Para impedir que as importações aumentem o governo pode, por exemplo, aumentar o IOF, como fez recentemente.

3. A atuação do Banco Central

Mas também existe um papel ativo do governo nesse processo por meio do Banco Central do Brasil, o banco dos bancos.

E como ele atua nesse mercado?  O Banco Central entra comprando ou vendendo dólar no mercado (chamado de mercado cambial).

Como assim? Por exemplo, se tiver muito dólar no país, o Banco Central pode entrar comprando dólar do mercado, para fazer essa quantidade cair. E o preço do dólar aumentar. Esse processo é conhecido como swap cambial reverso. E tem sido muito utilizado recentemente. ( O Banco Central pode fazer isso por outros meios, mas o swap cambial tem sido o mais utilizado).

Bizzaro! Por que o governo iria fazer isso?

Em nosso dia a dia, sempre pensamos que uma moeda americana mais baixa é excelente para o nosso bolso. Mas nem sempre é essa a motivação política.

Pensa bem, o que é melhor para uma empresa: Receber US$ 1 em exportações que se transforma em R$1 ou receber o mesmo US$1 e troca-lo por  R$4? No último caso, sua receita se multiplica por 4!

Pois então, como país, com o dólar valorizado, nossa balança comercial (exportações menos importações) tem maior possibilidade de se tornar positiva (ou menos negativa).

Entendido esse processo, como a alta do dólar impacta na sua vida?

1. Aumento da inflação

Com o dólar mais alto diversos produtos vão ficar mais caros. Por exemplo, a farinha de trigo! Um dos motivos do pãozinho estar tão caro.

Esse aumento atinge vários outros produtos. Nossa indústria é muito dependente de insumos importados.

Com isso…esse processo contribui para o aumento da inflação.

2. Aumento da dívida pública

Além do mais, aumenta a dívida pública, pois para comprar esses dólares, o governo paga juros.

Então, menos recursos disponíveis para gastos  essenciais no país, por exemplo.

Em 2015, o prejuízo com operações de swaps cambiais do Banco Central chegaram a quase R$90 bilhões, o maior da série histórica (!). (Veja aqui)

Ou ainda, o aumento da dívida faz aumentar a classificação de risco do país, o que pode do inibir investidores estrangeiros. Menos dólares no país. Mais cara a moeda americana. Um efeito dominó.

E se o dólar cai?

1. Contribui para a queda da inflação

Pois bem, já se o dólar cai, esses efeitos negativos sobre o cidadão são minimizados. Para o nosso bolso é mais vantagem.

2. Contribui para a indústria nacional

Pode ainda garantir preços melhores para a compra de máquinas e insumos importados para a indústria nacional. Assim, pode alavancar alguns setores, gerando mais empregos.

3. Queda das receitas com exportação

Por outro lado, o exportadores não lucram tanto, o que pode ou não afetar o emprego em indústrias exportadoras. Pode ainda aumentar a compra de importados com preços mais baixos.

Se há uma taxa de câmbio ideal? Difícil dizer.

Em economia as escolhas dificilmente atendem ou agradam a todos os públicos. Via de regra, sempre alguns grupos terão de perder. Contudo, a menos que seja feita uma política bem direcionada, a corda sempre vai arrebentar do lado mais fraco. Ou seja, sobre parcela menos favorecida da população.

Existem grandes interesses  por trás daquela notícia aparentemente corriqueira dos noticiários. Existem escolhas políticas diárias que interferem nas medidas econômicas. E impactam decisivamente no nosso dia a dia.

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5 comentários em “Como o dólar sobe? Um guia prático

  1. Ester, bom dia! Ficamos diante de uma encruzilhada quando pensamos na flutuação do dólar para a indústria, essa encruzilhada se deve principalmente por:
    Apesar do dólar alto, encarecer insumos para a indústria, ele também desfavorece as comprar realizadas no exterior. Até pouco tempo era comum, ir fazer o enxoval de bebês nos EUA, atualmente com o dólar mais alto, as famílias tem feito o enxoval no Brasil. Nesse ponto a alta do dólar, foi boa para a indústria nacional.
    Muito legal o seu texto.

  2. Muito bom o texto, poderia me esclarecer duas coisas, por favor:

    1 – no texto acima você diz que a alta do dólar aumenta a dívida pública, pois para comprar esses dólares, o governo paga juros. Esse juros é decorrente da emissão de títulos públicos para obter os recursos financeiros necessários para a compra de dólar ?
    2 – pode explicar como ocorre esse prejuízo com os swaps cambiais ?

    Obrigado.

    • Olá Thiago, excelente pergunta. Os swaps cambiais reversos são instrumentos financeiros do tipo derivativos. Ou seja, é um instrumento financeiro sofisticado onde os agentes trocam rentabilidade. Na prática, quando o governo vende contratos de swap (o swap cambial reverso), é como se ele estivesse comprando dólares do mercado. Mas, na realidade está apenas trocando rentabilidade entre contratos. Se ele perde, como tem acontecido, precisa pagar os juros. Aumentando a dívida. Para financiar essa dívida frequentemente ele precisa vender títulos da dívida pública para arcar com esse prejuízo. Espero que tenha esclarecido! Volte sempre!

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